Movimento Nacional dos catadores e catadoras de material reciclável redige Carta a Adolfo Perez Esqu
- Economia Solidária
- 23 de abr. de 2018
- 5 min de leitura

Carta ao Adolfo Perez Esquivel
Declaração do MNCR ao ativista argentino prêmio nobel da paz
Curitiba, dia 19 de abril de 2018.
Prezado Adolfo
“(...)não eram só projetos e programas, eram sonhos realizados”
Somos o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, fundado em 2001, formado exclusivamente por catadoras e catadores de materiais recicláveis tonando-se uma grande força que luta em defesa da natureza, pelo reconhecimento e valorização da categoria e contras as injustiças econômicas e pela economia solidária, lutando diariamente para construir “um outro mundo possível”.
Desde a nossa fundação, tivemos no Presidente Lula um grande parceiro, que ano após ano, realizou junto conosco, o Natal dos Catadores, especialmente após ele ter se tornado Presidente. Diferente dos políticos tradicionais, que infelizmente estão em grande número na política brasileira, o Presidente Lula não virou as costas para o seu povo após ter assumido tão importante cargo. Pelo contrário, logo após ter assumido como Presidente, Lula reuniu-se conosco embaixo de um viaduto em São Paulo, na realização do primeiro Natal dos Catadores e em seguida, nos chamou para uma conversa no Palácio do Planalto, sede do Governo brasileiro, que até então só recebia autoridades da elite, aqueles com latifúndios de diplomas universitários, poderosos com muito dinheiro e tantos outros que ampliavam seu poder se aproveitando das vantagens que obtinham do Estado.
Fomos recebidos no Palácio como verdadeiros donos: homens e mulheres, na maioria negros e negras, população em situação de rua, trabalhadores e trabalhadoras que limpavam a sujeira deixada em nossas cidades por muitas pessoas sem consciência ecológica. Naquele dia o Presidente Lula assumiu um compromisso com os catadores de que faria de tudo para melhorar a vida do povo trabalhador, especialmente dos mais pobres, que nuca tiveram o apoio do Estado.
Várias outras vezes voltamos a nossa casa, casa do povo brasileiro e o vimos, nosso presidente, depois contar uma história, de sua primeira visita à África, no Palácio de Mandela Presidente, vendo vossa emoção, que se misturava com a nossa, e quando voltávamos para nossos estados, nossas bases e dividimos com nossos companheiros de luta os projetos e conquistas dos catadores, além dos sentimentos de mudanças de nossas vidas, não eram só projetos e programas, eram sonhos realizados.
Foram inúmeros os programas e projetos desenvolvidos para as catadoras e catadores durante os seus dois mandatos. Foram investimentos em formação para a categoria; assistência técnica para as cooperativas e associações; construção de galpões que tiraram milhares de companheiros do trabalho semiescravo, abaixo de sol e chuva, muitas vezes sobre o domínio da violência e dos carteis de atravessadores. Com as prensas, esteiras, balanças, caminhões e diversos outros equipamentos ganhamos a liberdade e pudemos enfim, organizar nossas cooperativas e associações, nossas redes e centrais que uniam nossas organizações, para juntos firmar contratos com os municípios, fazer gestão de resíduos e ainda avançar na cadeia produtiva.
Poderíamos falar de várias outras conquistas materiais e econômicas que tivemos, mas nenhuma delas seria capaz de representar o nosso ganho maior, que foi a dignidade e o direito de realizar sonhos e construindo uma vida melhor com nossa companheirada, com nossas famílias.
A dignidade veio do reconhecimento do Estado brasileiro em relação a importância fundamental do profissional catador na cadeia da reciclagem no Brasil, que se materializou, por exemplo, na institucionalização do espaço do catador por meio de Leis como a 11445/07 e a 12.305/10, assinada pelo Presidente Lula e a presidenta Dilma, já eleita, ocupando nosso palco durante o Natal dos Catadores de 2010.
O acesso aos programas sociais e de transferência de renda, levaram-nos a dignidade que tanto sonhamos, tanto para nós catadores quanto para a população em situação de rua, isso tudo representou a possibilidade de realizarmos as três refeições diárias, colocada como meta pelo Presidente Lula no dia da sua vitória.
Nos trouxe dignidade o “Minha Casa Minha Vida”, que permitiu que muitos catadores saíssem de barracos e descobrissem o que é ter um teto, de sua propriedade, vendo suas famílias abrigadas e não mais no relento, suas crianças protegidas da chuva, de vetores e de diversas doenças que ceifavam a vida de muitas das nossas crianças.
Já o direito de sonhar e construir uma vida melhor com nossas famílias, veio do aumento da renda, oportunizado pelos investimentos feitos em nossas cooperativas e associações e pela significativa melhora da economia brasileira, que cresceu incluindo o povo mais pobre, como nunca antes havia se visto em nosso País.
Com estes ganhos, nosso povo catador passou a ter a possibilidade de manter seus filhos na escola, melhorou sua alimentação e passou a ficar menos doente, pode comer carne, um desejo não alcançado em períodos anteriores por boa parte do povo brasileiro, pode se vestir melhor e passar menos frio e, além disso tudo, passamos a conhecer uma palavra que sempre foi estranha para nós, lazer. Isso mesmo, passamos a ter a oportunidade de ir a um parque, a um cinema, a shoppings, a um restaurante e em outros lugares antes proibidos para nós. Vale dizer que passamos também a frequentar os aeroportos, o que, infelizmente, incomodou a atrasada elite brasileira.
Mas nada nos fez ter tanta esperança quanto a oportunidade de acessarmos a Universidade. O acesso a universidade foi a esperança maior para o nosso futuro e de nossas famílias. Muitos catadores, filhos de catadores e outros
membros da família puderam acessar e estão cursando a universidade por meio do PROUNI ou do FIES. Hoje temos catadores cursando diversos cursos em universidades de quase todos os estados brasileiros. E isso só foi possível em razão da revolução promovida pelo Presidente Lula na educação brasileira.
Poderíamos aqui escrever um livro, só falando das melhoras e da dignidade trazida pelo Presidente Lula a vida do povo brasileiro mais pobre.
Quando foi anunciada a injusta e perversa prisão do Presidente Lula, estávamos com outros movimentos sociais dispostos a resistir o quanto fosse necessário para impedir está afronta a democracia e a liberdade. Mas, mais uma vez, o Presidente Lula nos surpreendeu, e decidiu entregar-se, mostrando que é um ser humano especial, um incansável defensor da democracia, das liberdades e um grande construtor da paz.
O mundo precisa saber que o Presidente Lula se transformou em uma ideia e, ao mesmo tempo, em um símbolo da luta histórica do povo brasileiro por libertação, assim como foi Mandela para nossos irmãos africanos.
Lula representa o combate a fome, o direito a moradia, o direito a universidade, o direito a luz, o direito a saúde, o respeito a liberdade e a democracia. A ideia representada por Lula é a da fraternidade e da paz.
Pelos motivos expostos aqui e por tantos outros que não caberiam em um livro, pedimos ao Senhor e a toda a comunidade internacional, que reconheçam a importância que o nordestino retirante, metalúrgico, homem do povo que venceu a fome quando criança, para depois tornar-se o primeiro trabalhador Presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, teve e tem para o combate a fome e a miséria no mundo e lhes concedam o Prêmio Nobel da Paz.
Lula Livre
Viva nossa Luta!
Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis – MNCR
